Retomada Xukuru-Kariri em Brumadinho, MG: um ano de muitas conquistas! Por frei Gilvander Moreira1
Festa de 1 ano da Retomada Indígena Xukuru-Kariri, na Aldeia Arapowã Kakyá, em Brumadinho, MG, dia 25/02/2023. Foto: Rede de Apoio à Aldeia Arapowã KakyáPor volta das três horas da tarde, do
dia 20 de fevereiro de 2022, guiados, em sonho, pelo Grande Espírito e todos os
encantados, dezessete famílias (57 parentes) do Povo Indígena Xukuru-Kariri,
oriundos do estado de Alagoas, após peregrinarem e lutarem por território
durante várias décadas, com apenas a roupa do corpo, mas com muita coragem,
união, com a garra de um povo guerreiro e com a força de um sonho inabalável
que dizia “aqui é o território sagrado
que o Grande Espírito nos indica”, chegaram à fazenda Bruma, ao lado da
Fazenda Flor da índia (onde tem uma estátua de uma índia de uns seis metros,
com um bezerro no colo, ao lado da estrada asfaltada). O cacique Carlos
Arapowana, o vice-cacique Pedro e o pagé Sr. Paulo disseram: “Aqui é a terra que o Grande Espírito nos
mostrou. Estamos com sede de água, de terra, de natureza; e as crianças, também.”
Ao lado de uma lagoa e de uma casa grande toda devastada, arrancharam e
passo-a-passo foram construindo suas barracas de lona preta e estão se
enraizando no território há mais de um ano.
Os Xukuru-Kariri ocuparam uma das 127
fazendas compradas pela mineradora Vale após o crime-tragédia, que iniciou-se
dia 25 de janeiro de 2019, continua impune, se reproduzindo cotidianamente e se
multiplicando. Por exemplo, em quatro anos e um mês aconteceram inúmeros
suicídios em Brumadinho. O povo está adoecido e o consumo de ansiolíticos pela população aumentou
em mais de 70% e muita gente – incluindo crianças – está com metais pesados
circulando no sangue, por causa da contaminação das águas, da terra, do ar e dos alimentos, segundo pesquisa da Fiocruz.
A fazenda Bruma estava totalmente
abandonada, ociosa e sem cumprir sua função social. A casa grande da sede da
fazenda estava destelhada e com todas as portas e janelas arrancadas. Era lixo
e entulho por todos os lados. Assim a Vale S/A tem feito em todas as fazendas
compradas. Compra a fazenda, arranca o telhado, as portas e as janelas das
casas e deixa tudo abandonado, em claro indício de que só lhe interessa o
território para ampliar exploração minerária.
Dia 25 de fevereiro último (2023)
aconteceu, das 9 às 16 horas, a celebração de um ano de luta pela conquista do
território de 156 hectares, que segue sob disputa judicial. Um Encontro festivo
maravilhoso, inesquecível, com cerca de 500 pessoas, indígenas e lideranças da
grande Rede de Apoio à Aldeia Arapowã Kakyá.
Em uma linda sinfonia, os parentes
Xukuru-Kariri acolheram a todes cantando e dançando toré com cantos lindos,
partilhando com todes um pouco da sua entusiasmante mística e espiritualidade,
em cantos, tais como “a terra é nossa mãe, nós somos filhos dela ...”, “Somos
povo Xukuru-Kariri, povo de tradição ...” ecoaram pela Aldeia. Teve
apresentação do Bloco Carnaval Ambiental, de Casa Branca, em Brumadinho; Roda
de Conversa com a palavra partilhada pelo cacique Carlos Arapowanã, o vice-cacique
Pedro, o pagé Sr. Paulo, cacique Merong (do Povo Kamakã Mongoió) e outras
lideranças de outros Povos Indígenas presentes; Muitas lideranças da Rede de
Apoio também usaram o microfone para saudar o Povo Xukuru-Kariri e renovar
compromisso com a causa justa e legítima da Retomada do Território. Teve almoço
comunitário solidário para todes. Jogos indígenas, disputa de tiro de flecha
etc. E muita convivência alegre e festiva.
Nos primeiros meses, o Povo
Xukuru-Kariri enfrentou o bloqueio da entrada e saída da Retomada por uns
quinze seguranças armados da Vale S/A. Não deixavam entrar nenhum automóvel e
dificultavam ao máximo a entrada de pessoas da Rede de Apoio, ameaçando que
iriam fazer B.O, chamar a Polícia
Militar, alegando que ali era propriedade privada da Vale S/A e que ninguém poderia
entrar. A Vale S/A chegou ao absurdo dos absurdos de jogar vários caminhões
caçamba de terra em outra entrada que os parentes Xukuru-Kariri tinham feito em
mutirão, com suor e muito trabalho, para acessar a estrada. Até que um dia, pleno 19 de abril de 2022, Dia
dos Povos Indígenas, uma criança Xukuru-Kariri quase morrendo, precisando de inalação por
problemas respiratórios, foi impedida de ser levada ao pronto socorro do SUS na
cidade de Brumadinho. Tomado por ira santa,
os guerreiros Xukuru-Kariri resolveram desbloquear na marra a entrada de acesso
à comunidade, derrubando cercas e portão.
Neste primeiro ano de muita luta podemos
enumerar várias conquistas: os seguranças armados da Vale foram expulsos; hortas comunitárias
foram construídas, o que melhorou a alimentação da comunidade; a água chegou à sede da Aldeia
e a energia elétrica em todas as 17 casas de taipa (de pau-a-pique e barro)
construídas em mutirão e autoconstrução com apoio da Rede de Apoio; O Ouricuri, que
é a casa sagrada, foi construída no meio da mata, onde a comunidade
cultiva sua mística e espiritualidade; sistema agroflorestal está em curso com
o plantio de mais de duas mil mudas de árvores nativas do cerrado e da Mata
Atlântica; uma escola estadual Xukuru-Kariri, com quatro salas de aulas de
taipa construídas, onde dezenas de crianças, adolescentes e jovens estão
estudando a Educação Infantil, os Fundamental I e II, o Ensino Médio e Educação
de Jovens e Adultos (EJA), tendo o assunto sustentabilidade como tema
central no ano de 2023, desde as instâncias micro às macrovitais; agora são reconhecidos pelo
Poder Público do Município, de onde já são, inclusive, cidadãos eleitores;
nasceu o primeiro guerreirinho Xukuru-kariri no território retomado!; a Rede de Apoio só
cresce; a produção de artesanato indígena de uma exuberante beleza segue como
um dos meios de cultivar e divulgar a mística indígena e também como meio de
autossustento.
Além dos anfitriões da Retomada, os
parentes Xukuru-Kariri, na festa do 1º ano da Retomada, estavam presentes
indígenas de várias outras etnias (Kamakã Mongoió, Puris, Aranã, Pataxós, Quéchua
do Altiplano Andino etc) e lideranças da Comissão Pastoral da Terra (CPT/MG),
do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), do Centro de Documentação Eloy
Ferreira (CEDEFES), do Comitê Mineiro de Apoio aos Povos Indígenas, do
Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), do Movimento de Luta nos Bairros,
Vilas e Favelas (MLB); Coletivo Amor,
Coletivo Resistência; deputada Andreia de Jesus, assessoria do deputado Padre João, da deputada
Célia Xakriabá e da deputada Beatriz Cerqueira, da Secretaria Especial de Saúde
Indígena (SESAI); Bloco Carnaval Ambiental de Casa Branca; militantes de Partidos
de esquerda (UP, PSOL, PT); Faculdade de Educação da Universidade Federal de
Minas Gerais (FAE/UFMG); Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG); Quilombo
de Marinhos (Sr. Antônio Cambão); pequenos agricultores interessados em
aprender tecnologia agrícola sustentabilista tradicional indígena;
antropólogos da Itália, França e Brasil; apoiadores do município de Brumadinho
e de cidades vizinhas; Brigada Carcará de combate a incêndios florestais;
artistas diversos e cineastas mineiros, cantores/as, artistas etc.
As centenas de pessoas que participaram
da celebração do primeiro ano de luta da Retomada Indígena Xukuru-Kariri na
Aldeia Arapowã Kakya saíram de lá certos de que a mineradora Vale S/A com a
cumplicidade do Estado segue fazendo uma brutal sexta-feira da paixão na região
de Brumadinho, em Minas Gerais, no Pará e em 32 países. O povo Xukuru-Kariri e
todos os Povos Indígenas em luta pela retomada de seus territórios com o apoio
das forças vivas da sociedade seguem construindo um domingo de ressurreição com
justiça socioambiental e respeito à natureza, caminho necessário para frearmos
as mudanças climáticas, impedirmos a “queda do céu” (expressão do xamã Davi
Copenawava) e os eventos climáticos extremos que cada vez estão se tornando
mais frequentes e letais.
A causa indígena é totalmente coerente
com a necessidade urgente de mudança radical dos modos de produção e da
economia capitalista hegemônica. É uma causa de fato altamente justa e
revolucionária. O Povo Indígena Xukuru-Kariri é de luta, povo com uma cultura
maravilhosa, multimilenar. Gratidão a todes que estão se somando na Rede de
Apoio aos Povos Indígenas. E quem ainda não entrou na roda desta luta tão
justa, sagrada e necessária, sejam bem-vindos/as/es! Demarcação, já,
sem marco temporal!
28/02/2023
Obs.: As videorreportagens nos links, abaixo, versam sobre o assunto
tratado, acima.
1 - Um dia em uma aldeia Indígena
2 - Retomada Indígena Xukuru-Kariri - Comunidade
indígena Arapoã Kakyá -, em Brumadinho, MG – Vídeo 1
3 - Veja a Comunidade indígena Arapoã Kakyá (Retomada
Indígena Xukuru-Kariri), Brumadinho/MG – Vídeo 2
4 - "Nas Ocupações Urbanas tb podem ter casas
de taipa", banho e Horta Comunitária nos Xukuru-Kariri, MG
5 - Alegria e Trabalho Prazeroso na Construção de
Casas Ecológicas n Aldeia Xukuru-Kariri, Brumadinho/MG
6 - Frei Gilvander X Seguranças da Vale S/A e
Educação Indígena Xukuru-Kariri, em Brumadinho/MG. Vídeo 7
7 - Vale viola direito de ir, vir e de assistência
espiritual. Xukuru-Kariri, em Brumadinho/MG. Vídeo 9
8 - “Povo Xukuru-Kariri fará reflorestamento que
Vale faria na Fazenda Bruma”, Brumadinho, MG. Vídeo 11
Obs.: No youtube, no Canal “Frei Gilvander
luta pela terra e por direitos” há mais de 40 videorreportagens sobre a
Retomada Indígena Xukuru-Kariri da Aldeia Arapowã Kakyá, em Brumadinho, MG.
Quem ainda não assistiu, assista e divulgue para reforçar esta luta tão justa e
necessária.
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